O preço do petróleo do tipo Brent superou os US$ 100 por barril nesta quinta-feira (23), após ataques atribuídos aos houthis, do Iêmen, contra navios da Arábia Saudita no Mar Vermelho. O barril chegou a ser negociado a US$ 101 no início da tarde, com valorização de 6%.
A escalada das tensões no Oriente Médio ocorre após o fechamento do estreito de Bab el-Mandeb para embarcações sauditas. A passagem é uma das principais rotas marítimas para o transporte de combustíveis e sua interrupção pode afetar o comércio global, os custos de frete e a inflação.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o bloqueio amplia as restrições à circulação de petróleo e derivados, especialmente para a Arábia Saudita, os Estados Unidos, a Europa e países asiáticos.
Bloqueio ameaça escoamento do petróleo saudita
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Álvares, afirmou que o fechamento da rota tem impacto “bem relevante”. De acordo com ela, com as restrições no Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita vinha utilizando oleodutos até o Mar Vermelho como alternativa para escoar sua produção.
“Com o fechamento de Bab el-Manbed, isso não é mais possível”, explicou a especialista à Agência Brasil. Ela destacou que a Arábia Saudita está entre os maiores produtores globais de petróleo e que o bloqueio pode afetar o fornecimento do produto aos Estados Unidos, que utilizam o petróleo saudita na produção de combustíveis como gasolina e diesel.
Segundo estimativa da Agência Internacional de Energia, cerca de 10% do comércio marítimo de petróleo passa pelo estreito de Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho.
Europa pode sentir alta no frete
Ticiana Álvares também avaliou que um fechamento mais amplo do estreito afetaria diretamente a Europa. A região recebe produtos de petróleo enviados pela Ásia por meio do Mar Vermelho, o que poderia elevar de forma significativa os custos de transporte.
O diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos, Rodolfo Queiroz Laterza, afirmou que a Arábia Saudita deve sofrer perdas econômicas substanciais. Para ele, a interrupção da rota tende a agravar as cadeias logísticas de abastecimento e afetar economias dependentes da importação de petróleo e derivados.
O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas, Danny Zahreddine, disse que o fechamento da passagem pelos houthis representa uma nova etapa na guerra entre Irã e Estados Unidos. Na avaliação dele, a medida pode provocar um choque ainda maior na distribuição mundial de petróleo.
Zahreddine observou que os efeitos não se limitariam às embarcações sauditas. Transportes entre Europa, Estados Unidos e países da Ásia, como China, Malásia, Indonésia e Singapura, também poderiam ser afetados quando utilizam a rota pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez.
Brent acumula alta de 42% desde julho
A alta desta quinta-feira ocorre em um momento de redução da oferta no mercado de petróleo, que, segundo as informações divulgadas, acumula cinco meses. O cenário foi associado ao início da agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, e ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transitavam 20% do comércio marítimo de combustíveis.
Após a assinatura de um memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, em 17 de junho, o preço do barril começou a cair e chegou a US$ 70 em 1º de julho, o menor valor desde o início da guerra. Desde então, o Brent avançou 42%.
Conflito no Iêmen volta ao centro da crise
Para Laterza, o conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã teve desdobramentos sobre confrontos que estavam “congelados”, como a guerra no Iêmen. O especialista citou o acordo de 2022, intermediado pela China, e afirmou que ataques aéreos sauditas ao porto de Sanaa levaram os houthis a reagir.
Segundo o diretor do GSEC, o grupo possui capacidade militar para empregar mísseis antinavio, mísseis balísticos, armas hipersônicas e drones kamikaze. Na avaliação dele, esse cenário dificulta a estabilidade dos preços mundiais dos hidrocarbonetos e pode ampliar os impasses estratégicos para os Estados Unidos.










