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Marcio Pires

Jornalismo, Análise Política e Opinião

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STF enfrenta sessão histórica com racha entre ministros e debate sobre provas da PF no caso Master

STF debate a validade de relatório da PF sobre mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, em sessão marcada por tensão entre ministros.
Crise no STF retratada por balança da Justiça, celular apreendido e pasta de provas da PF.

Plenário analisa validade de relatório sobre mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça trocam acusações durante julgamento

O Supremo Tribunal Federal (STF) realizou nesta terça-feira (15/09/2026) uma sessão plenária extraordinária marcada por um dos mais graves conflitos internos de sua história. Os ministros discutem a validade de provas produzidas pela Polícia Federal a partir de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

O julgamento também colocou em primeiro plano o embate entre Gilmar Mendes e André Mendonça, com acusações de “condução político-eleitoral” e pedidos de respeito ao tribunal. A sessão ocorre em meio a questionamentos sobre a credibilidade do STF e representa um momento sem precedentes, por envolver o debate sobre a necessidade de investigar um integrante da própria Corte.

Segundo as informações apresentadas no plenário, a questão central é processual: saber se o relatório da PF pode ser utilizado ou se deve ser considerado nulo. A decisão sobre a validade do material definirá os próximos passos da apuração, sem que o mérito das mensagens esteja em julgamento nesta etapa.

O que está em análise no STF

O processo é a Petição 16.662, cuja relatoria foi assumida pelo presidente do STF, Edson Fachin. O caso envolve a requisição feita por Mendonça à PF, que resultou em um relatório baseado em dados extraídos do celular de Vorcaro.

O material identificou mensagens encaminhadas a Moraes. Mendonça separou as informações da investigação principal, retirou o sigilo e determinou a autuação da petição.

Também estão sob análise as medidas adotadas pelo ministro, que afastaram preventivamente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. No dia seguinte, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração dos dois delegados em outro processo. Fachin suspendeu temporariamente as decisões de Mendonça.

O mérito das mensagens, a quebra do sigilo do celular de Vorcaro e a conduta de Mendonça em outro procedimento, a Petição 16.704, não fazem parte da análise desta sessão. O julgamento sobre o suposto crime de responsabilidade atribuído a Mendonça está previsto para 23 de setembro.

PGR aponta possível nulidade das provas

A Procuradoria-Geral da República sustentou que tanto o pedido feito por Mendonça à PF quanto o material produzido a partir dele são nulos. Para a PGR, o ministro teria buscado elementos envolvendo outro integrante do Supremo sem comunicação prévia à Presidência da Corte e sem autorização do plenário.

O órgão também apontou uma possível violação ao sistema acusatório, ao considerar que houve iniciativa probatória de um magistrado na fase anterior à abertura formal de uma investigação. Gilmar Mendes pediu que essa questão fosse examinada antes das demais controvérsias.

De outro lado, a existência de dúvidas sobre a forma de obtenção do material não encerra automaticamente a necessidade de apurar os fatos relacionados às mensagens. Esse é o ponto de tensão processual que divide os ministros: de um lado, a defesa da legalidade da prova; de outro, a avaliação sobre se a apuração deve prosseguir.

Troca de acusações expõe divisão interna

O momento mais tenso ocorreu durante um bate-boca entre Gilmar Mendes e André Mendonça. Gilmar afirmou haver uma “evidente condução político-eleitoral” na atuação do colega e declarou: “Quem não se dá respeito não merece respeito”.

Mendonça respondeu: “Não aponte o dedo para mim. Não está falando com qualquer um. Respeite esse tribunal”. Em seguida, Alexandre de Moraes também elevou o tom e questionou quem teria chamado a PF para tentar colocar um colega em uma colaboração premiada.

Ao afirmar que pretendia levar testemunhas ao processo, Moraes incluiu o próprio Mendonça entre os nomes que poderiam ser ouvidos. Mendonça rebateu a acusação de que estaria a serviço de um grupo político com a palavra “Mentira”.

Na abertura da sessão, Fachin havia pedido “sensatez, decoro e serenidade” aos ministros. Segundo o presidente do STF, “não se julgam pessoas, julgam-se fatos e questões jurídicas” e “a divergência é legítima, o confronto pessoal não”. Ele defendeu que o tribunal diferencie a controvérsia jurídica da disputa pessoal.

Senado também discute desdobramentos

A crise repercutiu no Senado, onde a Comissão de Direitos Humanos realizou uma audiência pública sobre o caso. O senador Alessandro Vieira afirmou que há uma “infiltração profunda do crime organizado” e defendeu que a relação entre autoridades e investigados seja apurada com aplicação igual da lei.

Vieira informou que pretende impetrar mandado de segurança para que o presidente do Senado instale uma CPI específica sobre a relação dos ministros do STF com Vorcaro. Segundo ele, o pedido já conta com 40 assinaturas.

A presidente da comissão, senadora Damares Alves, disse que o Senado não deve permanecer indiferente diante de questões relacionadas a direitos fundamentais, devido processo legal, independência institucional e equilíbrio entre os Poderes. Outros senadores defenderam a análise de pedidos de impeachment de ministros e mudanças no processo de indicação ao Supremo.

A sessão do STF foi suspensa por volta das 13h e deve ser retomada à tarde para a análise de uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes. A proposta é suspender o julgamento e retomar a discussão em 23 de setembro, com uma análise conjunta das acusações envolvendo Moraes e Mendonça. Também deverá ser discutida a redistribuição da relatoria atualmente sob responsabilidade de Fachin.