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Marcio Pires

Jornalismo, Análise Política e Opinião

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SUS, matemática, crise climática e população de rua ficaram à margem da campanha presidencial

SUS, matemática, crise climática e população em situação de rua tiveram pouco espaço na campanha presidencial de 2026, segundo especialistas.
SUS, matemática, crise climática e população de rua ficaram à margem da campanha presidencial

O envelhecimento da população, a baixa aprendizagem em matemática, a preparação para eventos climáticos extremos e o crescimento da população em situação de rua estão entre os temas relevantes que tiveram pouco espaço na campanha presidencial de 2026. A análise foi feita pelo g1 a partir da avaliação de especialistas sobre os planos de governo apresentados por Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Os candidatos registraram suas propostas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas a discussão sobre como enfrentar esses desafios apareceu de forma limitada durante a disputa pelo Palácio do Planalto. Parte dos assuntos foi abordada no debate presidencial realizado pela TV Globo em 23 de outubro, mas não ocupou o centro da campanha.

Os problemas envolvem áreas essenciais das políticas públicas e exigem ações coordenadas entre União, estados e municípios, segundo os especialistas ouvidos pelo g1. Entre os pontos destacados estão o aumento dos custos do Sistema Único de Saúde (SUS), a formação de professores, a prevenção de desastres e a necessidade de informações mais completas sobre pessoas que vivem nas ruas.

Envelhecimento pressiona financiamento e organização do SUS

O SUS atende a população em diferentes frentes, desde hospitais e vacinação até a distribuição gratuita de medicamentos, o funcionamento de bancos de sangue e de leite, o monitoramento da qualidade da água e a vigilância sanitária. O governo federal deve investir, em 2026, R$ 254,93 bilhões em saúde, conforme dados atualizados do Portal da Transparência. Estados, Distrito Federal e municípios também têm pisos de investimento definidos em lei.

Para Rudi Rocha, professor de economia e saúde da FGV EAESP, o envelhecimento da população exigirá mais recursos e uma integração maior entre os serviços. O Plano Nacional de Saúde de 2024 registrou expectativa de vida de 76,6 anos e apontou preocupação com o aumento da carga de doenças crônicas.

Até 2021, o Brasil destinava o equivalente a 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) à saúde. Estudo de Rocha e outros pesquisadores estima que esse percentual precisaria chegar a 12,5% até 2060 para atender às necessidades da população. O sistema deverá lidar com aumento de cirurgias, medicamentos de uso contínuo, tratamentos contra o câncer e internações prolongadas.

O professor também defende a revisão da Tabela do SUS, que define os valores pagos por serviços prestados na rede. Uma lei sancionada em janeiro de 2024 estabeleceu que a tabela seja revisada anualmente, em dezembro, por ato do Ministério da Saúde.

Matemática concentra defasagem no ensino médio

Na educação pública, os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram avanços mais consistentes nos anos iniciais do ensino fundamental do que no ensino médio. Levantamento do Todos pela Educação, divulgado em agosto, analisou dados de 2005 a 2025 e apontou estagnação especialmente na aprendizagem de matemática.

Em 2025, 58,6% dos estudantes do ensino médio estavam abaixo do nível básico em matemática. O índice ficou próximo dos 59% registrados em 2023 e acima dos 51,7% de 2019. Em língua portuguesa, o percentual foi de 31,2%. Menos de um em cada dez estudantes do ensino médio apresentou aprendizagem adequada.

Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos pela Educação, relaciona o problema à formação e à atratividade da carreira docente. Segundo ela, a matemática é menos explorada no cotidiano dos estudantes do que a língua portuguesa e, por isso, depende especialmente do ensino escolar.

A especialista também defende que as competências matemáticas básicas sejam desenvolvidas desde os primeiros anos da vida escolar. Para ela, a prioridade dada à alfabetização na idade certa precisa ser acompanhada por uma política voltada à matemática na idade certa.

Eventos extremos ampliam necessidade de adaptação

A prevenção de desastres e a preparação das cidades para secas, enchentes e ondas de calor também tiveram pouco espaço nas campanhas. Projeções citadas na análise indicam que o El Niño pode se estender até março de 2027 e alcançar uma das maiores intensidades das últimas décadas.

Boletim do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontou probabilidade superior a 95% de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre o fim de outubro e dezembro. As previsões indicavam chuvas acima da média no Sul, redução das precipitações em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e temperaturas elevadas em quase todo o país.

Dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), referentes a setembro, mostraram algum grau de seca em 75% do território brasileiro. No Nordeste, o percentual chegou a 96%.

O climatologista Carlos Nobre afirmou que o país está pouco adaptado a eventos extremos, como ondas de calor, inundações, deslizamentos e secas. Ele citou estimativa de 10 milhões de brasileiros vivendo em áreas de risco relacionadas a chuvas intensas, dos quais 2 milhões estariam em regiões de altíssimo risco. Nobre também defendeu políticas de proteção contra ondas de calor para a população urbana e grupos vulneráveis.

População em situação de rua permanece pouco visível

O Brasil tinha 394.863 pessoas em situação de rua, segundo levantamento divulgado em julho pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O monitoramento utiliza dados do Cadastro Único, do Ministério do Desenvolvimento Social.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) define a situação de rua como um fenômeno complexo, com múltiplas causas e difícil de mensurar. Para ampliar as informações disponíveis, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o IBGE anunciaram, em maio, o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua. A pesquisa deve ser concluída em 2028.

De acordo com análise do coordenador do Observatório, André Luiz Freitas Dias, não há menção específica a essa população no programa de Flávio Bolsonaro. No plano de Lula, aparecem propostas de apoio a populações vulnerabilizadas, incluindo pessoas em situação de rua, por meio do fortalecimento da rede pública de proteção, do direito à cidade e da inclusão social.

O especialista Marco Natalino avaliou que a campanha priorizou a segurança de forma geral, sem detalhar políticas para essa população. Segundo ele, pessoas em situação de rua também são cidadãs e têm direitos que precisam ser considerados pelas políticas públicas, independentemente do resultado da eleição.