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Marcio Pires

Jornalismo, Análise Política e Opinião

marciopires.com.br

Desempenhos atípicos no Provão Paulista chegam a 4.305 e levantam dúvidas sobre vagas públicas

Estudo aponta 4.305 desempenhos atípicos no Provão Paulista e questiona impactos nas convocações para universidades públicas e Fatecs.
Estudantes realizando o Provão Paulista

Estudo aponta 4.305 desempenhos atípicos no Provão Paulista e questiona impacto nas vagas públicas

Um estudo da Rede Escola Pública e Universidade (REPU) identificou 4.305 desempenhos estatisticamente atípicos entre estudantes do 3º ano da rede estadual que fizeram o Provão Paulista em 2025. Segundo a análise, os resultados podem ter influenciado convocações para universidades públicas e Fatecs no primeiro semestre de 2026.

A pesquisa é apresentada na nota técnica Fraude sistêmica no Provão Paulista e consequências para os processos seletivos de instituições públicas de Ensino Superior, divulgada na sexta-feira (4). O documento analisou microdados das edições de 2023, 2024 e 2025, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

A REPU afirma que a concentração dos resultados fora do padrão pode ter afetado as listas de convocação e a igualdade de condições entre os participantes. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, porém, contesta essa interpretação e diz que os dados não permitem sustentar a existência de fraude sistêmica nem concluir que o processo seletivo tenha sido comprometido.

Casos atípicos cresceram entre 2024 e 2025

Os pesquisadores compararam o desempenho dos mesmos estudantes em diferentes edições do exame. Foram classificados como atípicos os resultados com variações consideradas extremamente improváveis de um ano para outro. O critério é estatístico e, segundo a própria nota técnica, não permite afirmar que um estudante específico tenha fraudado a prova.

Entre os alunos do 3º ano da rede estadual, a proporção de resultados atípicos passou de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025. De acordo com a REPU, os 4.305 desempenhos registrados em 2025 representaram 12,7 vezes o número esperado estatisticamente.

Nas Escolas Técnicas Estaduais, o padrão não se repetiu da mesma forma. Em 2025, 0,17% dos estudantes das Etecs apresentaram resultados classificados como atípicos, percentual considerado compatível com a normalidade estatística pelos autores.

A concentração dos casos também chamou a atenção dos pesquisadores. Metade dos desempenhos atípicos estava em 50 escolas, que representam 1,4% das unidades participantes do Provão Paulista. Em 44 dessas escolas, mais de 40% dos estudantes tiveram resultados considerados fora do padrão. Em algumas unidades, o percentual ultrapassou 90%.

Entre as regiões administrativas da rede, metade dos casos registrados entre estudantes do 3º ano estava concentrada em oito das 91 Unidades Regionais de Ensino. Na regional com a maior proporção, 28,6% das notas foram classificadas como atípicas.

Estudo cruza anomalias com convocações

A nota técnica também cruzou os resultados com as listas de convocados para instituições públicas de Ensino Superior. Dos 14.271 alunos da rede estadual convocados por meio do Provão Paulista, 1.608, ou 11,3%, estudavam em 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados individuais foram considerados atípicos.

Outros 1.266 convocados eram de escolas com mais de 40% de resultados fora do padrão. Já 1.017 estudavam em unidades nas quais mais da metade dos alunos apresentou desempenho classificado como anômalo. Os convocados estavam distribuídos entre USP, Unicamp, Unesp e Fatecs.

Em nove escolas consideradas especialmente discrepantes, com mais de 75% de resultados atípicos e mais de 75% de convocados, 203 dos 225 estudantes, o equivalente a 90%, tiveram desempenho classificado como atípico. Nessas mesmas unidades, 192 alunos, ou 85%, foram convocados para instituições públicas.

A REPU ressalva que os dados disponíveis não permitem identificar candidatos que tenham fraudado a prova nem determinar quantas vagas foram efetivamente ocupadas em decorrência de resultados obtidos sob condições irregulares.

Bonificações e aplicação das provas entram no debate

Para os autores, o desenho do Provão Paulista pode ter criado conflitos de interesse. O exame é usado ao mesmo tempo como processo seletivo para universidades públicas, instrumento de avaliação das escolas estaduais e referência para bonificações e medidas de responsabilização de gestores e professores.

As provas são aplicadas nas próprias escolas, sob fiscalização de profissionais que podem ser afetados pelos resultados. A REPU cita que 559 escolas estaduais com Ensino Médio receberam bonificação Ouro ou Diamante pelos resultados de 2024. Pelos resultados de 2025, 2.839 unidades receberam a bonificação Ouro.

O estudo não afirma que a política de bonificação seja a única causa das irregularidades, mas avalia que o sistema de recompensas e punições criou incentivos para a inflação dos resultados. Os pesquisadores também mencionam o uso ampliado de celulares e ferramentas digitais na rede estadual como um fator que teria facilitado a deterioração dos procedimentos de aplicação.

A nota técnica recupera denúncias registradas desde a primeira edição do Provão Paulista, em 2023, incluindo relatos de vazamento, circulação de imagens e respostas, uso de celulares e facilitação de cola. Em novembro de 2025, a Secretaria da Educação confirmou a autenticidade de imagens de provas publicadas nas redes sociais em seis casos. Segundo a pasta, as ocorrências foram pontuais, as provas foram anuladas e não houve acesso prévio ao conteúdo.

Secretaria contesta conclusão sobre fraude sistêmica

Em nota, a Secretaria da Educação afirmou que resultados estatisticamente atípicos não podem ser associados a fraude sem evidências individualizadas. A pasta também disse que o estudo não identifica quais estudantes teriam fraudado a prova, como as supostas fraudes teriam ocorrido ou quantas vagas teriam sido afetadas.

A Seduc-SP informou ter feito uma análise complementar das escolas citadas no estudo, cruzando os resultados com o Saeb, avaliação organizada pelo Inep e aplicada por equipe externa. Entre 34 escolas com dados comparáveis, 22 apresentaram desempenho elevado ou evolução relevante em Matemática.

A secretaria citou como exemplo a Escola Estadual Gavião Peixoto Conselheiro. De acordo com a pasta, 32 dos 35 estudantes tiveram resultados classificados como atípicos no Provão Paulista, enquanto os mesmos alunos alcançaram 363,7 pontos em Matemática no Saeb de 2025, com evolução de 106,4 pontos desde 2023.

Para a Secretaria da Educação, essa comparação mostra que resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não distinguem evolução da aprendizagem, preparação para o exame ou eventual irregularidade.

Entre as recomendações da REPU estão o controle efetivo de dispositivos eletrônicos e da circulação das provas, mudanças nos locais de aplicação, aperfeiçoamento da seleção e da supervisão dos aplicadores e criação de auditorias permanentes. Os pesquisadores também defendem separar a avaliação da rede de ensino do processo seletivo para universidades, além de divulgar integralmente os microdados e a documentação metodológica.